Andanças de um Homem do mundo em diálogo com o seu cão
Capítulo I [Continuação-1]
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Noite
Noite
No fim da habitual caminhada da noite, O Homem de fazer Chuva e o Pingo chegam, finalmente, à sua casa. A "casa", mais não é do que um prisma triangular, um "debaixo da escada", tapado de um lado por uma parede suja de velha e no outro por umas tábuas forradas a cartão, abraçado a estas por restos de cordel apanhados de sobras, o cartão desviado de um monte de caixotes de uma loja de eletrodomésticos... A "casa" é rematada com uma vista para o passeio no alçado principal. O chão está isolado com um oleado, roto nalgumas partes e, por cima dele, mais cartão e jornais. Isolam bem do frio e medianamente da humidade... A um canto, numa nesga da esquina entre a parede e o chão, uma pequena flor selvagem que como que enfeita aqueles escassos três metros de espaço e que O Homem de fazer Chuva estima num zelo paternal, como se nela e nas pequenas e verdes folhas residisse qualquer resto de esperança, nem ele sabe bem em quê...
Muitas vezes, para manter o recato, o Homem de fazer Chuva tapa parte desse alçado virado para a rua e por lá fica, esconjurando a noite e as suas sombras, com o Pingo junto a si, defendendo-se um ao outro, trocando total confiança , dando largura e amplitude a uma amizade que ficará bem para lá das mais elaboradas noções do tempo. A rua tem pouco movimento e a iluminação já conheceu melhores dias. Com é uma zona onde o turismo não faz a sua aparição salvífica, a câmara quase se esquece dessa parte da cidade, é como se tratasse de uma outra cidade. Para O Homem de fazer Chuva tanto melhor, já que multidões não são a coisa que mais aprecia e a luz noturna exagerada troca-lhe as doses de melatonina. Pingo boceja e no fim do bocejo, um ligeiro "chiar", uma espécie de declaração de cansaço e de alívio por, finalmente, estar ali, no espaço de referência dos dias e do tempo.
Muitas vezes, para manter o recato, o Homem de fazer Chuva tapa parte desse alçado virado para a rua e por lá fica, esconjurando a noite e as suas sombras, com o Pingo junto a si, defendendo-se um ao outro, trocando total confiança , dando largura e amplitude a uma amizade que ficará bem para lá das mais elaboradas noções do tempo. A rua tem pouco movimento e a iluminação já conheceu melhores dias. Com é uma zona onde o turismo não faz a sua aparição salvífica, a câmara quase se esquece dessa parte da cidade, é como se tratasse de uma outra cidade. Para O Homem de fazer Chuva tanto melhor, já que multidões não são a coisa que mais aprecia e a luz noturna exagerada troca-lhe as doses de melatonina. Pingo boceja e no fim do bocejo, um ligeiro "chiar", uma espécie de declaração de cansaço e de alívio por, finalmente, estar ali, no espaço de referência dos dias e do tempo.
- A nossa casa é o nosso mundo pequenino, Pingo. Nesta cidade vadia, sem saber bem por onde anda nem por onde e para onde vai, temos aqui este pedaço para nós. E é nesta cidade como podia ser em outra, mas é aqui que estamos. Já andei por outras, quando os meus dias eram todos iguais, passados a fazer sempre as mesmas coisas, a tentar convencer-me e a convencer os outros de que era feliz e que, tendo uma profissão digna e de elite, era livre e dono de mim mesmo e do meu tempo. Mas afinal, era tudo na fronteira do engano...
Estás a ver ali aquela luz naquele terceiro andar, Pingo? Vê-la? É uma desgraçada de uma dona de casa a tratar da roupa dos seus. De dia tem a sua profissão, de noite parece ter outra. Quase todos os dias a vejo estender roupa, algumas vezes no tempo que deveria ser do sono, ali pelas três da manhã... O marido e os dois filhos devem estar a dormir, mas ela não. Não lhe vejo a cara, mas sei que é ela, porque está sempre presa a um cigarro, pois aquele pontinho de luz alaranjada vai mudando de intensidade à medida que ela lhe aplica as passas. E depois vejo a nuvem de fumo a subir e acho que parte da sua alma sobe misturada com o fumo. Às vezes até parece que é o cigarro que evita que ela se lance cá para baixo, em busca de algo diferente, anunciando-se aos filhos e ao marido para quem às vezes parece não ser mais do que uma entidade semi-transparente, difusa, que apenas está e que faz.
E uma boa parte das pessoas vive assim, a tentar roubar tempo ao tempo, a tentar acrescentar noutras, com medo de tudo, a começar de si mesmas ou do que não conhecem de si... Um poeta americano*, dado como maluco, escreveu num dos seus poemas que "somos todos museus do medo!"... Vivem assim, com quase tudo numa indecisão de apostador... E a matarem-se lentamente, vergados a um não sei quê de viver.
Estás a perceber, Pingo?
Para o Pingo, toda esta conversa entrou por uma orelha e saiu pela outra a uma velocidade considerável. Estava mais interessado em vergar-se ao peso do sono, provavelmente ajudado pela sempre eficaz contagem de pulgas para congregar o fecho dos seus olhos negros, orientado para sonhos com a cadelas conhecidas ou faustos repastos com ossos e rações gourmet, anunciadas nos outdoors, sempre com belas cadelas em poses provocatórias, capazes de tudo...
À volta deles fica a cidade adormecida, quase vazia de ruído, rasgada ao longe por uma sirene de ambulância ou pelo som de um cão também longínquo, ladrando às sombras furtivas, porque tudo na noite parece sempre longe e em fuga.
Estás a ver ali aquela luz naquele terceiro andar, Pingo? Vê-la? É uma desgraçada de uma dona de casa a tratar da roupa dos seus. De dia tem a sua profissão, de noite parece ter outra. Quase todos os dias a vejo estender roupa, algumas vezes no tempo que deveria ser do sono, ali pelas três da manhã... O marido e os dois filhos devem estar a dormir, mas ela não. Não lhe vejo a cara, mas sei que é ela, porque está sempre presa a um cigarro, pois aquele pontinho de luz alaranjada vai mudando de intensidade à medida que ela lhe aplica as passas. E depois vejo a nuvem de fumo a subir e acho que parte da sua alma sobe misturada com o fumo. Às vezes até parece que é o cigarro que evita que ela se lance cá para baixo, em busca de algo diferente, anunciando-se aos filhos e ao marido para quem às vezes parece não ser mais do que uma entidade semi-transparente, difusa, que apenas está e que faz.
E uma boa parte das pessoas vive assim, a tentar roubar tempo ao tempo, a tentar acrescentar noutras, com medo de tudo, a começar de si mesmas ou do que não conhecem de si... Um poeta americano*, dado como maluco, escreveu num dos seus poemas que "somos todos museus do medo!"... Vivem assim, com quase tudo numa indecisão de apostador... E a matarem-se lentamente, vergados a um não sei quê de viver.
Estás a perceber, Pingo?
Para o Pingo, toda esta conversa entrou por uma orelha e saiu pela outra a uma velocidade considerável. Estava mais interessado em vergar-se ao peso do sono, provavelmente ajudado pela sempre eficaz contagem de pulgas para congregar o fecho dos seus olhos negros, orientado para sonhos com a cadelas conhecidas ou faustos repastos com ossos e rações gourmet, anunciadas nos outdoors, sempre com belas cadelas em poses provocatórias, capazes de tudo...
À volta deles fica a cidade adormecida, quase vazia de ruído, rasgada ao longe por uma sirene de ambulância ou pelo som de um cão também longínquo, ladrando às sombras furtivas, porque tudo na noite parece sempre longe e em fuga.
*Charles Bukowski
Imagem ilustrativa sem autor identificado
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© António Luís

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