Andanças de um Homem do mundo em diálogo com o seu cão
Capítulo I [Continuação-2]
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Simone
Simone
São três horas da madrugada. À janela do seu apartamento, Simone estende roupa no estendal exterior. Parte dela está praticamente pendurada para o lado de fora e não poucas vezes pensou na outra metade e de como seria bom levantar voo dali para fora, rumo a qualquer incerteza.
Do outro lado da rua, o Homem de Fazer Chuva e o Pingo dormem um sono justo, porque nada devem e também nada temem. Não se pode perder o que não se tem e o medo é uma entidade que não conhecem.
No fim da sua tarefa e enquanto se perde em mais um cigarro, Simone evade-se em pensamentos que esvoaçam pelo breu da madrugada. Não podendo ir ela, vai o pensamento...
- Já tentei deixar de fumar, mas... Mas quero lá saber. É um dos poucos prazeres que me restam... Um maço dá para dois dias. Ganho pouco, mas dá para manter.
Simone vai cogitando o escuro, procurando desvendar o contorno das sombras e os segredos nele existentes. Observa o Homem de Fazer Chuva e o seu cão, na sua "casa" no vão triangular da escada, ali em baixo, tão perto e tão longe
- Qual será o nome deles? Aristides e Teco? O velho tem cara de Aristides. Ou então de Joaquim... Podem até ser todos os nomes, para um homem que vive na rua pode ter todos os nomes porque pode ser também muitos homens ao mesmo tempo e o cão é apenas a sua versão com quatro patas e uma cauda...Oh rapariga, o que é que estás para aqui a matutar, às três da manhã? Não devias estar na cama? O relógio toca às seis e meia. Já ontem foi a mesma coisa? Quando é que dormes? Conheces a palavra descanso? Não? É melhor que a passes a conhecer...
Quero lá saber! Durmo quando morrer. Pode ser que assim alguém dê pela minha falta ou, finalmente, me dêem valor porque para já e como empregada estou bem, obrigada!
com a cabeça num turbilhão de dúvidas, de esperanças, os nervos, o cigarro a encolher, a filha no quarto talvez a dormir e seguramente a trepar a adolescência colada nas paredes e no teto, o marido cada vez mais parvo e distante
- Às tantas tem outra... Só pode!
a ressonar sinfonias disformes na cama, o gato a roçar-se nas pernas, a piscar os olhos como que a convocar para dormir, a beata atirada para o passeio, estatelando-se em pequenos pontinhos cor de laranja e a largar um ténue fiozinho de fumo azulado que sobe direito na ausência de vento e desfazendo-se pouco depois, como muitos sonhos e desejos se desfazem a todo o instante.
- E chupa as espinhas do bacalhau. Parte-as pelos nós e chupa-as, esteja onde estiver. Já lhe disse que odeio isso. Ele não quer saber.
- Não olhes nem ouças!
como não quer saber de quase nada. Nem da filha, desde que não o aborreça com as tretas da juventude, chupa-as com barulho, mete-as na boca, dá-lhes umas voltas e chupa num espalhafato de artista. Chupa muito e depois coloca-as em fila ordenada na beira do prato. Um labrego do pior. Nem sei como casei com aquela besta, quer dizer, na altura em que casámos ela não era assim, foi piorando piorando, perdeu-se no tempo ou eu perdi-me dele, não sei. Parece que seguimos por duas estradas opostas, as nossas mãos vazias umas das outras... Flores, nem pensar. Já lá vai o tempo e o romantismo que ele ainda chegou a usar acho que o fechou num caixote e arrumou-o na garagem, lá num canto e provavelmente já nem se lembra que o dito por lá está. E um dia
- Simone, temos de arrumar esta garagem. Mais de metade disto é lixo!
quem acaba por ter de fazer tudo sou eu... Quer dizer, já é assim. O "um dia" são estes dias! Todos os dias!
- Ernesto, acho que afinal o velhote ali do vão de escada é Ernesto e cão é o Alferes. Não sei, lembrei-me agora de repente. Estou louca! É de não dormir!... Há qualquer coisa de revolucionário no homem, como aquele da américa latina que a juventude ainda usa boinas dele... E o cão Alferes é o mandante canino, que abre caminho nestas ruas de gente doida. Acho que eles é que são felizes!
Quero lá saber! Durmo quando morrer. Pode ser que assim alguém dê pela minha falta ou, finalmente, me dêem valor porque para já e como empregada estou bem, obrigada!
com a cabeça num turbilhão de dúvidas, de esperanças, os nervos, o cigarro a encolher, a filha no quarto talvez a dormir e seguramente a trepar a adolescência colada nas paredes e no teto, o marido cada vez mais parvo e distante
- Às tantas tem outra... Só pode!
a ressonar sinfonias disformes na cama, o gato a roçar-se nas pernas, a piscar os olhos como que a convocar para dormir, a beata atirada para o passeio, estatelando-se em pequenos pontinhos cor de laranja e a largar um ténue fiozinho de fumo azulado que sobe direito na ausência de vento e desfazendo-se pouco depois, como muitos sonhos e desejos se desfazem a todo o instante.
- E chupa as espinhas do bacalhau. Parte-as pelos nós e chupa-as, esteja onde estiver. Já lhe disse que odeio isso. Ele não quer saber.
- Não olhes nem ouças!
como não quer saber de quase nada. Nem da filha, desde que não o aborreça com as tretas da juventude, chupa-as com barulho, mete-as na boca, dá-lhes umas voltas e chupa num espalhafato de artista. Chupa muito e depois coloca-as em fila ordenada na beira do prato. Um labrego do pior. Nem sei como casei com aquela besta, quer dizer, na altura em que casámos ela não era assim, foi piorando piorando, perdeu-se no tempo ou eu perdi-me dele, não sei. Parece que seguimos por duas estradas opostas, as nossas mãos vazias umas das outras... Flores, nem pensar. Já lá vai o tempo e o romantismo que ele ainda chegou a usar acho que o fechou num caixote e arrumou-o na garagem, lá num canto e provavelmente já nem se lembra que o dito por lá está. E um dia
- Simone, temos de arrumar esta garagem. Mais de metade disto é lixo!
quem acaba por ter de fazer tudo sou eu... Quer dizer, já é assim. O "um dia" são estes dias! Todos os dias!
- Ernesto, acho que afinal o velhote ali do vão de escada é Ernesto e cão é o Alferes. Não sei, lembrei-me agora de repente. Estou louca! É de não dormir!... Há qualquer coisa de revolucionário no homem, como aquele da américa latina que a juventude ainda usa boinas dele... E o cão Alferes é o mandante canino, que abre caminho nestas ruas de gente doida. Acho que eles é que são felizes!
Fotografia: Emre Kuzo
[Continua]
© António Luís

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