O Homem de fazer Chuva
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I
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Pingo
Pingo, cão,
rafeiro com o orgulho possível atestado pelo garbo das suas quatro patas sobre o chão, caminha sempre uns dois metros na frente. Não é
um porta-estandarte, porque não há desfile, não há banda, a honra, existindo, às vezes é como
se não existisse, mas é ele que primeiro perscruta o que está adiante nos caminhos e
qualquer alteração no seu passo ou no alinhamento da sua cauda é o sinal para o
dono que vai atrás, O Homem de fazer Chuva
- Sabes, Pingo,
para lá do tempo que anda às voltas nos relógios, sem conseguir dar com a saída
num engano de séculos, coitado, há muitas coisas que se nos agarram à pele e
depois nem com os banhos vão ralo abaixo rumo à escura caverna do esquecimento.
A certa altura até o meu nome desapareceu. Desapareceu de tal forma que eu próprio
já não o sei... e só me dirigiam a palavra para que lhes adivinhasse o tempo,
não sem raras vezes eu adivinhar neles, em muitas das suas caras, um certo ar
de troça
"- Amanhã vai chover ou fazer sol, Ti Chuvas?"
"- Amanhã vai chover ou fazer sol, Ti Chuvas?"
uns chamavam-me Ti Chuvas e eu, talvez
palerma, olhava para o céu, para o rumo das nuvens se as houvesse, para o curso
do vento ou até para o tipo de azul do céu, e lá lhes dava uma resposta, em que
eu acreditava, e eles seguiam satisfeitos. Ou com a informação ou com o facto
de me terem “provocado”, como se eu fosse uma espécie de palhaço mal vestido e com falta de dentes e com virtudes de bruxo ou adivinho, acompanhado de um rafeiro e dois ou três
sacos plásticos à pendura, cheios de quase nada.
que se fez seu dono quando um dia, numa
rua cheia de cinzentos e sombras, pedaços de jornais ensopados como que chorando a sua
condição ou a condição das suas notícias, tudo nas muitas dobras da noite,
ambos se cruzaram debaixo de uma chuva tão miudinha que parecia entranhar-se
pelos ossos dentro, vergando-os a um torpor que lhes prendia até o acerto da
respiração e a cadência dos passos, arrefecendo-lhes as noções sobre si
próprios e do que os rodeava.
O vigilante canídeo sacudia pontualmente o seu curto pelo castanho e branco, em semicírculos alternados numa pressa elétrica, sem que um só milímetro do seu corpo não se mexesse, produzindo uma outra chuva que se projetava uns metros à sua volta. Seguiam tranquilos no empedrado da noite e do tempo.
- Pingo, a noite mais não é do que, quando olhamos para leste, percebemos que é lá que o escuro se começa a montar. Todos os dias os operários do tempo e do céu sobem e descem escadas, andam por andaimes altíssimos, colocando por ordem de escuros e de estrelas, uma a uma as telas da noite. Quando há nuvens e chuva, têm muito mais trabalho, porque tem de respeitar as camadas... Todos os dias, Pingo, todos os dias! Só folgam de manhã, quando os longos braços do sol arredam tudo para o canto num cuidado de pai.
- Não te assustes, meu caro cachorro! Sabes quem é aquela?
É a Mercedes. Tem nome de carro alemão mas é espanhola de alto a baixo, nascida nas franjas de Sevilha, entre castanholas e manzanilla. Veio para cá um dia, numa excursão do emprego - pelo menos é o que ela diz... - e nunca mais quis saber de voltar.
Coitada. Anda por aí a tratar de juntar os pedaços dela própria, a ver se se completa. Vejo-a muitas vezes por baixo das árvores, a catar as folhas que caem. Apanha-as e vai colocá-las junto aos seus troncos, para lhas devolver. Projeta no ato a sua própria busca... Quando o vento abana os ramos das árvores, é vê-la sorrir porque, diz ela, a árvore lhe está a agradecer. É assim que ela (sobre)vive, Pingo... E quando não há vento, senta-se triste num banco, apontando as flores murchas e desfia uma ladainha rezada e cantada para ele voltar, enquanto que com as mãos crestadas do sol vai rodando em contagem sem fim os folhos da mesma saia comprida de sempre.
- Pingo, a noite mais não é do que, quando olhamos para leste, percebemos que é lá que o escuro se começa a montar. Todos os dias os operários do tempo e do céu sobem e descem escadas, andam por andaimes altíssimos, colocando por ordem de escuros e de estrelas, uma a uma as telas da noite. Quando há nuvens e chuva, têm muito mais trabalho, porque tem de respeitar as camadas... Todos os dias, Pingo, todos os dias! Só folgam de manhã, quando os longos braços do sol arredam tudo para o canto num cuidado de pai.
Mercedes
As quatro patas de Pingo estacam e a cauda não abana. Um vulto cruza uma esquina tristemente iluminada por um candeeiro que não acerta no continuado da sua luz, piscando a velhice no breu da noite, acompanhado do cansaço do pesado balastro, que geme num som de doentes a medo, ambos sob a tal chuva tão fina quanto o pó, que parece diária, eterna...- Não te assustes, meu caro cachorro! Sabes quem é aquela?
É a Mercedes. Tem nome de carro alemão mas é espanhola de alto a baixo, nascida nas franjas de Sevilha, entre castanholas e manzanilla. Veio para cá um dia, numa excursão do emprego - pelo menos é o que ela diz... - e nunca mais quis saber de voltar.
Coitada. Anda por aí a tratar de juntar os pedaços dela própria, a ver se se completa. Vejo-a muitas vezes por baixo das árvores, a catar as folhas que caem. Apanha-as e vai colocá-las junto aos seus troncos, para lhas devolver. Projeta no ato a sua própria busca... Quando o vento abana os ramos das árvores, é vê-la sorrir porque, diz ela, a árvore lhe está a agradecer. É assim que ela (sobre)vive, Pingo... E quando não há vento, senta-se triste num banco, apontando as flores murchas e desfia uma ladainha rezada e cantada para ele voltar, enquanto que com as mãos crestadas do sol vai rodando em contagem sem fim os folhos da mesma saia comprida de sempre.
[Continua]
©
António Luís

SIM SENHOR!
ResponderExcluirEstou à espera do livro, para ler as histórias que sei mais escrever outra vez!
Abraço!
Compra um bom sofá!
ResponderExcluirOu até mesmo uma boa cama.
Longa, muito longa se tornará a espera...
AL 5521