segunda-feira, 14 de outubro de 2019

O HOMEM DE FAZER CHUVA - [ Fim ]



O presidente da Câmara, entusiasmado com o resultado eleitoral da véspera disse, no discurso de retumbante vitória, que retiraria da rua todos os cães vadios e todos os sem abrigo, por serem nefastos para a imagem da cidade agora atapetada pelo turismo e pedrada em elevado estilo pelos crescentes índices de qualidade de vida urbana.
O Homem de Fazer Chuva e o Pingo foram apanhados neste golpe de salvação municipal e social e portanto, varridos com zelo político e enternecedora benevolência pelo funcionalismo camarário das ruas da vaidosa e orgulhosa urbe.
O primeiro foi simpaticamente arrumado e por indicação superior, num Lar de Idosos camarário onde aguarda numa cadeira de canto e de olhos presos numa parede pouco limpa e sem cor, pela vinda e respetiva entrega da morte numa bandeja de inox, enfeitada com rodelas de amargo limão.
     "- Alguma coisa tem de ser feita para devolver segurança à cidade e dignidade a estas pessoas!", gritou o excitado Edil enquanto limpava os espumados cantos da boca.
E foi.
O cão Pingo foi levado para o canil camarário e já apareceu em fotografias no Facebook a ser alvo de tratamento adequado, entenda-se, oferecido para "adoção responsável" ou engordando o argumento de que
     - "É incomportável mantermos à custa do erário público e quase sem ajudas, tantos cães e a maior parte deles já velhos e sem raça e algo terá de ser feito!"
E foi.

© António Luís

Fim.

Foto: Ilustrativa/Créditos na imagem

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