quarta-feira, 16 de outubro de 2019

O FIM EXPLICADO


A minha escrita é fodida.
Não é direta, não é de "carregar pela boca" e, portanto, não atrai.

     "- Ah, o gajo parte as frases, mete diálogos paralelos pelo meio, escreve coisas complicadas, depois volta atrás, tem a mania das metáforas e não sei quê!..."

E, tendo em conta que já estou na arrogante meia idade, já me desprendi da pueril ideia de que o que escrevo e como escrevo pode agradar a "largas" massas. 
"Largas", aqui é mais de uma dezena de leitores.
A leitura não é para cansar, é para distrair e deixar-nos "bem dispostos". Já bem bastam os azedos do dia-a-dia.
Portanto, é fim de linha para esta aventura em direto.
Muito provavelmente vou continuar esta saga de "O Homem de fazer Chuva" no recato de uma página de word e, quem sabe um dia, a juntarei a outras sagas que tenho alinhavadas e já com muitas horas de dedicação.
Seja como for, agradeço a todos os que seguiram os quatro "episódios" que arrisquei escrever em direto.
Dias felizes vos recebam!

António Luís

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

O HOMEM DE FAZER CHUVA - [ Fim ]



O presidente da Câmara, entusiasmado com o resultado eleitoral da véspera disse, no discurso de retumbante vitória, que retiraria da rua todos os cães vadios e todos os sem abrigo, por serem nefastos para a imagem da cidade agora atapetada pelo turismo e pedrada em elevado estilo pelos crescentes índices de qualidade de vida urbana.
O Homem de Fazer Chuva e o Pingo foram apanhados neste golpe de salvação municipal e social e portanto, varridos com zelo político e enternecedora benevolência pelo funcionalismo camarário das ruas da vaidosa e orgulhosa urbe.
O primeiro foi simpaticamente arrumado e por indicação superior, num Lar de Idosos camarário onde aguarda numa cadeira de canto e de olhos presos numa parede pouco limpa e sem cor, pela vinda e respetiva entrega da morte numa bandeja de inox, enfeitada com rodelas de amargo limão.
     "- Alguma coisa tem de ser feita para devolver segurança à cidade e dignidade a estas pessoas!", gritou o excitado Edil enquanto limpava os espumados cantos da boca.
E foi.
O cão Pingo foi levado para o canil camarário e já apareceu em fotografias no Facebook a ser alvo de tratamento adequado, entenda-se, oferecido para "adoção responsável" ou engordando o argumento de que
     - "É incomportável mantermos à custa do erário público e quase sem ajudas, tantos cães e a maior parte deles já velhos e sem raça e algo terá de ser feito!"
E foi.

© António Luís

Fim.

Foto: Ilustrativa/Créditos na imagem

domingo, 6 de outubro de 2019

O HOMEM DE FAZER CHUVA [ Capítulo I - (Continuação-3) ]


O Homem de fazer Chuva
Andanças de um Homem do mundo em diálogo com o seu cão
Capítulo I [Continuação-3]
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Todas as manhãs começam com o nascer do sol, esteja ele à vista ou atrás de nuvens. É a luz que desperta o Homem de Fazer Chuva, já depois de Pingo se ir aliviar numa esquina, com tudo ainda a lavar-se das remelas da noite. Fá-lo no primeiro fio de luz, aquele que começa a instalar a manhã e a arrumar as telas da noite. Vai para zona segura, de onde não perca o seu dono, atento a qualquer eventualidade.
Enquanto o dia não se instala por completo, permanece junto do Homem de Fazer Chuva, contabilizando uma ou outra pulga perseguindo-a num afã de dentes, vigiando os transeuntes, pensando em algo para forrar os seu canino estômago, sempre um desafio de todas as manhãs.
A cidade instala-se e retoma a sua corrida para parte incerta.
Os dois juntam-se à corrente de gente, divergindo apenas na velocidade - menor - com que seguem. A pressa é um significado que limparam do dicionário da sua existência

      - Sabes, Pingo, a maior parte desta gente, mesmo que se arrede de nós e nos olhe de lado, no fundo gostaria de ser e viver como nós. São uns coitados, tem eiras e beiras mas vivem no limbo da estupidez, atrás de vazios que se sucedem a cada preenchimento que conseguem... No fundo, limitam-se quase a ser alguma coisa e a estar em algum lado, não sendo nem estando no que querem.

e orientam-se apenas no sentido do pequeno-almoço, servido amistosamente num pequeno bar - uma tasca - de ruela, aquelas onde os raios de sol remetem requerimento, assinatura reconhecida e despacho divino ao espaço entre casas para penetrarem e fazerem valer a sua lei de luz e calor. Atrás do balcão, com alguns dentes em falta mas com o melhor 
      - Bom dia!
do seu mundo, Pingo na frente e o Homem de Fazer Chuva a seguir, entram e são recebidos pelo

Ti Tramado

Manuel Calado, de seu nome de batismo, homem robusto, a pender para o atarracado,  faces rosadas, sorriso fácil, a tal carestia de dentes - um incisivo e dois caninos, um de cada lado - as palavras por isso algo assobiadas, os gestos largos, como se preparasse para abraçar o tempo e o espaço, pouco cabelo e uns ténues fios para a melena que como um arco de circunferência, mal disfarça uma alva e lustrosa careca que brilha por via das luzes colocadas por cima do balcão. O espaço é acanhado e a iluminação indecisa entre o branco e o amarelado e pelo ar, uma mescla de aromas entre o café moído na velha máquina do canto, o cheiro do carapau frito e do molho de escabeche, e os taninos do tinto carrasco servido a copo, ao comprimento do balcão... Tudo com o taberneiro típico, aqui e ali agastado, sempre com o algo seráfico ar das tarefas, o pano ao ombro
     - Isto é uma tasca. Não há cá luxos e modas!
sempre pronto a dignificar o balcão à conta das aureolas do tinto ou dos restos de amendoins. Toda a gente o conhece por "Ti Tramado" e o Homem de fazer Chuva, na "sua" mesa de todas as manhãs

     - Oh Tramado, já sabes, é o costume! Deus ou alguém por ele que te pague. Se morreres depois de mim, juro-te que ressuscitarei e vou ao teu enterro! Bem o mereces!

e o papo seco com manteiga e o copo de leite com café aparecem na mesa do canto, prontos a fazer a implacável justiça da fome. Para o Pingo, umas sobras da véspera embrulhadas em papel prateado, que o Homem de Fazer Chuva lhe haverá de dar em local próprio, quando saírem.

      - Sabes porque é que todos o conhecem por "Ti Tramado", Pingo? Não sabes, não te deve interessar mas gosto que me escutes... Nos anos de aperto, enquanto os governos e os bancos andaram a brincar com o dinheiro das pessoas e de certo modo a gozar à grande - o que fazem habitualmente uns de forma mais competente do que outros - o Manel Calado manteve muita gente no limiar da dignidade, arredando até fome e segurando o mais que podia. E por causa disso esteve com a corda ao pescoço. A aflição fazia-o repetir vezes sem conta, atrás daquele balcão
     - Estou tramado!
e muitos ouviam-no sem saber o porquê daquilo e aos poucos o Tramado tomou conta do Calado. Alguns que ele ajudou retribuíram a ajuda e mantêm-se por perto, considerando-o e estimando-o com a sua amizade, outros viraram costas e nem essas o Tramado lhes vê, tal foi o sumiço. A gratidão é uma coisa... tramada, Pingo!


Fotografia: Não creditada/Internet

[Continua]

© António Luís

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

O HOMEM DE FAZER CHUVA [ Capítulo I - (Continuação-2) ]

O Homem de fazer Chuva
Andanças de um Homem do mundo em diálogo com o seu cão
Capítulo I [Continuação-2]
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Simone
     São três horas da madrugada. À janela do seu apartamento, Simone estende roupa no estendal exterior. Parte dela está praticamente pendurada para o lado de fora e não poucas vezes pensou na outra metade e de como seria bom levantar voo dali para fora, rumo a qualquer incerteza.
Do outro lado da rua, o Homem de Fazer Chuva e o Pingo dormem um sono justo, porque nada devem e também nada temem. Não se pode perder o que não se tem e o medo é uma entidade que não conhecem.
No fim da sua tarefa e enquanto se perde em mais um cigarro, Simone evade-se em pensamentos que esvoaçam pelo breu da madrugada. Não podendo ir ela, vai o pensamento...

      - Já tentei deixar de fumar, mas... Mas quero lá saber. É um dos poucos prazeres que me restam... Um maço dá para dois dias. Ganho pouco, mas dá para manter.

Simone vai cogitando o escuro, procurando desvendar o contorno das sombras e os segredos nele existentes. Observa o Homem de Fazer Chuva e o seu cão, na sua "casa" no vão triangular da escada, ali em baixo, tão perto e tão longe

      - Qual será o nome deles? Aristides e Teco? O velho tem cara de Aristides. Ou então de Joaquim... Podem até ser todos os nomes, para um homem que vive na rua pode ter todos os nomes porque pode ser também muitos homens ao mesmo tempo e o cão é apenas a sua versão com quatro patas e uma cauda...Oh rapariga, o que é que estás para aqui a matutar, às três da manhã? Não devias estar na cama? O relógio toca às seis e meia. Já ontem foi a mesma coisa? Quando é que dormes? Conheces a palavra descanso? Não? É melhor que a passes a conhecer...
Quero lá saber! Durmo quando morrer. Pode ser que assim alguém dê pela minha falta ou, finalmente, me dêem valor porque para já e como empregada estou bem, obrigada!

com a cabeça num turbilhão de dúvidas, de esperanças, os nervos, o cigarro a encolher, a filha no quarto talvez a dormir e seguramente a trepar a adolescência colada nas paredes e no teto, o marido cada vez mais parvo e distante
      
      - Às tantas tem outra... Só pode!

a ressonar sinfonias disformes na cama, o gato a roçar-se nas pernas, a piscar os olhos como que a convocar para dormir, a beata atirada para o passeio, estatelando-se em pequenos pontinhos cor de laranja e a largar um ténue fiozinho de fumo azulado que sobe direito na ausência de vento e desfazendo-se pouco depois, como muitos sonhos e desejos se desfazem a todo o instante.

     - E chupa as espinhas do bacalhau. Parte-as pelos nós e chupa-as, esteja onde estiver. Já lhe disse que odeio isso. Ele não quer saber. 
     - Não olhes nem ouças!
como não quer saber de quase nada. Nem da filha, desde que não o aborreça com as tretas da juventude, chupa-as com barulho, mete-as na boca, dá-lhes umas voltas e chupa num espalhafato de artista. Chupa muito e depois coloca-as em fila ordenada na beira do prato. Um labrego do pior. Nem sei como casei com aquela besta, quer dizer, na altura em que casámos ela não era assim, foi piorando piorando, perdeu-se no tempo ou eu perdi-me dele, não sei. Parece que seguimos por duas estradas opostas, as nossas mãos vazias umas das outras... Flores, nem pensar. Já lá vai o tempo e o romantismo que ele ainda chegou a usar acho que o fechou num caixote e arrumou-o na garagem, lá num canto e provavelmente já nem se lembra que o dito por lá está. E um dia
     - Simone, temos de arrumar esta garagem. Mais de metade disto é lixo!
quem acaba por ter de fazer tudo sou eu... Quer dizer, já é assim. O "um dia" são estes dias! Todos os dias!

     - Ernesto, acho que afinal o velhote ali do vão de escada é Ernesto e cão é o Alferes. Não sei, lembrei-me agora de repente. Estou louca! É de não dormir!... Há qualquer coisa de revolucionário no homem, como aquele da américa latina que a juventude ainda usa boinas dele... E o cão Alferes é o mandante canino, que abre caminho nestas ruas de gente doida. Acho que eles é que são felizes!


Fotografia: Emre Kuzo


[Continua]

© António Luís

domingo, 22 de setembro de 2019

O HOMEM DE FAZER CHUVA [ Capítulo I - (Continuação-1) ]

O Homem de fazer Chuva
Andanças de um Homem do mundo em diálogo com o seu cão
Capítulo I [Continuação-1]
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Noite
     No fim da habitual caminhada da noite, O Homem de fazer Chuva e o Pingo chegam, finalmente, à sua casa. A "casa", mais não é do que um prisma triangular, um "debaixo da escada", tapado de um lado por uma parede suja de velha e no outro por umas tábuas forradas a cartão, abraçado a estas por restos de cordel apanhados de sobras, o cartão desviado de um monte de caixotes de uma loja de eletrodomésticos... A "casa" é rematada com uma vista para o passeio no alçado principal. O chão está isolado com um oleado, roto nalgumas partes e, por cima dele, mais cartão e jornais. Isolam bem do frio e medianamente da humidade... A um canto, numa nesga da esquina entre a parede e o chão, uma pequena flor selvagem que como que enfeita aqueles escassos três metros de espaço e que O Homem de fazer Chuva estima num zelo paternal, como se nela e nas pequenas e verdes folhas residisse qualquer resto de esperança, nem ele sabe bem em quê...
Muitas vezes, para manter o recato, o Homem de fazer Chuva tapa parte desse alçado virado para a rua e por lá fica, esconjurando a noite e as suas sombras, com o Pingo junto a si, defendendo-se um ao outro, trocando total confiança , dando largura e amplitude a uma amizade que ficará bem para lá das mais elaboradas noções do tempo. A rua tem pouco movimento e a iluminação já conheceu melhores dias. Com é uma zona onde o turismo não faz a sua aparição salvífica, a câmara quase se esquece dessa parte da cidade, é como se tratasse de uma outra cidade. Para O Homem de fazer Chuva tanto melhor, já que multidões não são a coisa que mais aprecia e a luz noturna exagerada troca-lhe as doses de melatonina. Pingo boceja e no fim do bocejo, um ligeiro "chiar", uma espécie de declaração de cansaço e de alívio por, finalmente, estar ali, no espaço de referência dos dias e do tempo.
     
      - A nossa casa é o nosso mundo pequenino, Pingo. Nesta cidade vadia, sem saber bem por onde anda nem por onde e para onde vai, temos aqui este pedaço para nós. E é nesta cidade como podia ser em outra, mas é aqui que estamos. Já andei por outras, quando os meus dias eram todos iguais, passados a fazer sempre as mesmas coisas, a tentar convencer-me e a convencer os outros de que era feliz e que, tendo uma profissão digna e de elite, era livre e dono de mim mesmo e do meu tempo. Mas afinal, era tudo na fronteira do engano... 
Estás a ver ali aquela luz naquele terceiro andar, Pingo? Vê-la? É uma desgraçada de uma dona de casa a tratar da roupa dos seus. De dia tem a sua profissão, de noite parece ter outra. Quase todos os dias a vejo estender roupa, algumas vezes no tempo que deveria ser do sono, ali pelas três da manhã... O marido e os dois filhos devem estar a dormir, mas ela não. Não lhe vejo a cara, mas sei que é ela, porque está sempre presa a um cigarro, pois aquele pontinho de luz alaranjada vai mudando de intensidade à medida que ela lhe aplica as passas. E depois vejo a nuvem de fumo a subir e acho que parte da sua alma sobe misturada com o fumo. Às vezes até parece que é o cigarro que evita que ela se lance cá para baixo, em busca de algo diferente, anunciando-se aos filhos e ao marido para quem às vezes parece não ser mais do que uma entidade semi-transparente, difusa, que apenas está e que faz.
E uma boa parte das pessoas vive assim, a tentar roubar tempo ao tempo, a tentar acrescentar noutras, com medo de tudo, a começar de si mesmas ou do que não conhecem de si... Um poeta americano*, dado como maluco, escreveu num dos seus poemas que "somos todos museus do medo!"... Vivem assim, com quase tudo numa indecisão de apostador... E a matarem-se lentamente, vergados a um não sei quê de viver. 
Estás a perceber, Pingo?

Para o Pingo, toda esta conversa entrou por uma orelha e saiu pela outra a uma velocidade considerável. Estava mais interessado em vergar-se ao peso do sono, provavelmente ajudado pela sempre eficaz contagem de pulgas para congregar o fecho dos seus olhos negros, orientado para sonhos com a cadelas conhecidas ou faustos repastos com ossos e rações gourmet, anunciadas nos outdoors, sempre com belas cadelas em poses provocatórias, capazes de tudo...
À volta deles fica a cidade adormecida, quase vazia de ruído, rasgada ao longe por uma sirene de ambulância ou pelo som de um cão também longínquo, ladrando às sombras furtivas, porque tudo na noite parece sempre longe e em fuga.

*Charles Bukowski
Imagem ilustrativa sem autor identificado

[Continua]

© António Luís

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

O HOMEM DE FAZER CHUVA - [ Capítulo I ]

O Homem de fazer Chuva
Andanças de um Homem do mundo em conversas com o seu Cão.
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I
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Pingo
Pingo, cão, rafeiro com o orgulho possível atestado pelo garbo das suas quatro patas sobre o chão,  caminha sempre uns dois metros na frente. Não é um porta-estandarte, porque não há desfile, não há banda, a honra, existindo, às vezes é como se não existisse, mas é ele que primeiro perscruta o que está adiante nos caminhos e qualquer alteração no seu passo ou no alinhamento da sua cauda é o sinal para o dono que vai atrás, O Homem de fazer Chuva

- Sabes, Pingo, para lá do tempo que anda às voltas nos relógios, sem conseguir dar com a saída num engano de séculos, coitado, há muitas coisas que se nos agarram à pele e depois nem com os banhos vão ralo abaixo rumo à escura caverna do esquecimento. A certa altura até o meu nome desapareceu. Desapareceu de tal forma que eu próprio já não o sei... e só me dirigiam a palavra para que lhes adivinhasse o tempo, não sem raras vezes eu adivinhar neles, em muitas das suas caras, um certo ar de troça

"- Amanhã vai chover ou fazer sol, Ti Chuvas?"

uns chamavam-me Ti Chuvas e eu, talvez palerma, olhava para o céu, para o rumo das nuvens se as houvesse, para o curso do vento ou até para o tipo de azul do céu, e lá lhes dava uma resposta, em que eu acreditava, e eles seguiam satisfeitos. Ou com a informação ou com o facto de me terem “provocado”, como se eu fosse uma espécie de palhaço mal vestido e com falta de dentes e com virtudes de bruxo ou adivinho, acompanhado de um rafeiro e dois ou três sacos plásticos à pendura, cheios de quase nada.

que se fez seu dono quando um dia, numa rua cheia de cinzentos e sombras, pedaços de jornais ensopados como que chorando a sua condição ou a condição das suas notícias, tudo nas muitas dobras da noite, ambos se cruzaram debaixo de uma chuva tão miudinha que parecia entranhar-se pelos ossos dentro, vergando-os a um torpor que lhes prendia até o acerto da respiração e a cadência dos passos, arrefecendo-lhes as noções sobre si próprios e do que os rodeava. 
       O vigilante canídeo sacudia pontualmente o seu curto pelo castanho e branco, em semicírculos alternados numa pressa elétrica, sem que um só milímetro do seu corpo não se mexesse, produzindo uma outra chuva que se projetava uns metros à sua volta. Seguiam tranquilos no empedrado da noite e do tempo.

        - Pingo, a noite mais não é do que, quando olhamos para leste, percebemos que é lá que o escuro se começa a montar. Todos os dias os operários do tempo e do céu sobem e descem escadas, andam por andaimes altíssimos, colocando por ordem de escuros e de estrelas, uma a uma as telas da noite. Quando há nuvens e chuva, têm muito mais trabalho, porque tem de respeitar as camadas... Todos os dias, Pingo, todos os dias! Só folgam de manhã, quando os longos braços do sol arredam tudo para o canto num cuidado de pai.
Mercedes
       As quatro patas de Pingo estacam e a cauda não abana. Um vulto cruza uma esquina tristemente iluminada por um candeeiro que não acerta no continuado da sua luz, piscando a velhice no breu da noite, acompanhado do cansaço do pesado balastro, que geme num som de doentes a medo, ambos sob a tal chuva tão fina quanto o pó, que parece diária, eterna...

          - Não te assustes, meu caro cachorro! Sabes quem é aquela?
É a Mercedes. Tem nome de carro alemão mas é espanhola de alto a baixo, nascida nas franjas de Sevilha, entre castanholas e manzanilla. Veio para cá um dia, numa excursão do emprego - pelo menos é o que ela diz... -  e nunca mais quis saber de voltar. 
Coitada. Anda por aí a tratar de juntar os pedaços dela própria, a ver se se completa. Vejo-a muitas vezes por baixo das árvores, a catar as folhas que caem. Apanha-as e vai colocá-las junto aos seus troncos, para lhas devolver. Projeta no ato a sua própria busca... Quando o vento abana os ramos das árvores, é vê-la sorrir porque, diz ela, a árvore lhe está a agradecer. É assim que ela (sobre)vive, Pingo... E quando não há vento, senta-se triste num banco, apontando as flores murchas e desfia uma ladainha rezada e cantada para ele voltar, enquanto que com as mãos crestadas do sol vai rodando em contagem sem fim os folhos da mesma saia comprida de sempre.
[Continua]

© António Luís