Andanças de um Homem do mundo em diálogo com o seu cão
Capítulo I [Continuação-3]
--
Todas as manhãs começam com o nascer do sol, esteja ele à vista ou atrás de nuvens. É a luz que desperta o Homem de Fazer Chuva, já depois de Pingo se ir aliviar numa esquina, com tudo ainda a lavar-se das remelas da noite. Fá-lo no primeiro fio de luz, aquele que começa a instalar a manhã e a arrumar as telas da noite. Vai para zona segura, de onde não perca o seu dono, atento a qualquer eventualidade.
Enquanto o dia não se instala por completo, permanece junto do Homem de Fazer Chuva, contabilizando uma ou outra pulga perseguindo-a num afã de dentes, vigiando os transeuntes, pensando em algo para forrar os seu canino estômago, sempre um desafio de todas as manhãs.
A cidade instala-se e retoma a sua corrida para parte incerta.
Os dois juntam-se à corrente de gente, divergindo apenas na velocidade - menor - com que seguem. A pressa é um significado que limparam do dicionário da sua existência
- Sabes, Pingo, a maior parte desta gente, mesmo que se arrede de nós e nos olhe de lado, no fundo gostaria de ser e viver como nós. São uns coitados, tem eiras e beiras mas vivem no limbo da estupidez, atrás de vazios que se sucedem a cada preenchimento que conseguem... No fundo, limitam-se quase a ser alguma coisa e a estar em algum lado, não sendo nem estando no que querem.
e orientam-se apenas no sentido do pequeno-almoço, servido amistosamente num pequeno bar - uma tasca - de ruela, aquelas onde os raios de sol remetem requerimento, assinatura reconhecida e despacho divino ao espaço entre casas para penetrarem e fazerem valer a sua lei de luz e calor. Atrás do balcão, com alguns dentes em falta mas com o melhor
- Bom dia!
do seu mundo, Pingo na frente e o Homem de Fazer Chuva a seguir, entram e são recebidos pelo
Ti Tramado
Manuel Calado, de seu nome de batismo, homem robusto, a pender para o atarracado, faces rosadas, sorriso fácil, a tal carestia de dentes - um incisivo e dois caninos, um de cada lado - as palavras por isso algo assobiadas, os gestos largos, como se preparasse para abraçar o tempo e o espaço, pouco cabelo e uns ténues fios para a melena que como um arco de circunferência, mal disfarça uma alva e lustrosa careca que brilha por via das luzes colocadas por cima do balcão. O espaço é acanhado e a iluminação indecisa entre o branco e o amarelado e pelo ar, uma mescla de aromas entre o café moído na velha máquina do canto, o cheiro do carapau frito e do molho de escabeche, e os taninos do tinto carrasco servido a copo, ao comprimento do balcão... Tudo com o taberneiro típico, aqui e ali agastado, sempre com o algo seráfico ar das tarefas, o pano ao ombro
- Isto é uma tasca. Não há cá luxos e modas!
sempre pronto a dignificar o balcão à conta das aureolas do tinto ou dos restos de amendoins. Toda a gente o conhece por "Ti Tramado" e o Homem de fazer Chuva, na "sua" mesa de todas as manhãs
- Oh Tramado, já sabes, é o costume! Deus ou alguém por ele que te pague. Se morreres depois de mim, juro-te que ressuscitarei e vou ao teu enterro! Bem o mereces!
e o papo seco com manteiga e o copo de leite com café aparecem na mesa do canto, prontos a fazer a implacável justiça da fome. Para o Pingo, umas sobras da véspera embrulhadas em papel prateado, que o Homem de Fazer Chuva lhe haverá de dar em local próprio, quando saírem.
- Sabes porque é que todos o conhecem por "Ti Tramado", Pingo? Não sabes, não te deve interessar mas gosto que me escutes... Nos anos de aperto, enquanto os governos e os bancos andaram a brincar com o dinheiro das pessoas e de certo modo a gozar à grande - o que fazem habitualmente uns de forma mais competente do que outros - o Manel Calado manteve muita gente no limiar da dignidade, arredando até fome e segurando o mais que podia. E por causa disso esteve com a corda ao pescoço. A aflição fazia-o repetir vezes sem conta, atrás daquele balcão
- Estou tramado!
e muitos ouviam-no sem saber o porquê daquilo e aos poucos o Tramado tomou conta do Calado. Alguns que ele ajudou retribuíram a ajuda e mantêm-se por perto, considerando-o e estimando-o com a sua amizade, outros viraram costas e nem essas o Tramado lhes vê, tal foi o sumiço. A gratidão é uma coisa... tramada, Pingo!
Fotografia: Não creditada/Internet